segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Nasci nos portais do Templo
Aos pés da escadaria fui concebido
Nunca fui convidado a entrar
Nem a Ele fui conduzido.

Cresci das migalhas dos devotos
Da misericórdia dos santos
Das sobras dos monges
Dos panos dos sudários.

Por compaixão, um dia,
Enterraram minha mãe
Após ela, meus irmãos,
Eu lá fora, permanecia.

A lua de cada noite
O sol de cada dia
Me viam, ano a ano,
Nos vãos dos passos
Das procissões,

Deitava-me com os cães
Com quem dividia
As sobras divinas
Das bocas devocionais.

Com a idade, os olhares
De piedade aumentavam
Também as necessidades:
Nunca se sobrava o bastante.

Com a fome e o frio
Acostumei-me
Mera extensão do degrau
Que me viu nascer.

Um dia, em mármore,
Adormeci.

Pés feridos que do chão
Se elevam
Pórticos não me importam
Subo pelas torres
Entro pelos vitrais.

O cântico dos cânticos
Enche meus ouvidos
Tão acostumados
Aos meus próprios gemidos.

Embaixo, o altar-mor:
O Sacerdote eleva ao céu
A Taça Sagrada
Que reluz ao sol.

                       Eis que então percebo
                       Que a mim são dirigidas
                       As palavras cerimoniais:

                               “Bem-vindo à tua casa, enfim.
                               Dá-nos tua piedade
                               Enche-nos com as sobras
                               Do tão pouco que te demos.

                               Entra no corpo dos que te ignoraram.
                               Derrama-te em chuvas
                               Nas escadarias de nossas almas,
                               Pois no Santuário em que estamos,
                               Nunca verdadeiramente adentramos.
                               E tu, pela Providência,
                               Te tornaste, com o tempo,
       O próprio Templo”

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