quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Monstro


Como me tornei este monstro? Nem me lembro
Não sei se acordei assim, ou fui mudando aos poucos
Só sei que numa manhã me olhei no espelho
E não mais me reconheci.

Desse dia em diante tentei me convencer
Que era coisa passageira…logo passa
As coisas não aconteceram assim, porém.
A adaptação então foi necessária.

Comecei a aparar os pelos maiores
Que brotavam por toda a parte, no meu corpo
Os menores deixei (por puro charme)
Com dentaduras disfarcei meus dentes tortos.

Deixei meu cabelo crescer, cobrindo as orelhas
Que ficaram pontiagudas de repente
Com óculos disfarcei meus olhos vermelhos.
Em alguns momentos ficava até atraente.

Daí assim saía, caminhando pelas ruas
Passei a ser notado como nunca antes
De mera decoração da noite escura
Tornei-me o centro das atenções dos transeuntes.

Comecei a reconhecer outros como eu
Com mutações diversas e histórias similares
Não se recordavam como um dia eram
Nem mais se importavam com suas dores.

Nos juntamos em bando. Saiamos juntos
Disfarçávamo-nos uns aos outros em aglomero
Passamos a ser notados, seguidos, admirados,  
Imitavam-nos em todos nossos atos, tão grotescos.

Hoje somos milhares, o disfarce tornou-se obsoleto
Muitos querem ser como somos, de corpo e alma
Inverteu-se o ônus do desejo:
O mais impuro virou padrão de coisa humana.

Não nos culpe, pedimos sinceramente
Como nos tornamos isto não sabemos.
Mas nunca obrigamos ninguém a ser igual
Por livre escolha nos tomaram por modelo.

Há um pouco de nós em ti, neste momento?
Bem provável - não te espantes tanto assim:
Suas mudanças podem estar no modo lento
Confere-te no espelho, após dormir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário