segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Soneto à ossada à beira da rodovia

Repousa imaculada, a ossada dorme à beira da estrada
Contrasta com o azul piche do asfalto no acostamento
Quase perdida, escondida, invisível à velocidade dos carros
Não desperta asco ou espanto, inodora pela ação do tempo.

O crânio hoje oco já ostentou miolo, olho, língua, ouvido,
O dominó macabro dos pedaços que se espalham com o vento
Já foi uma peça só, caminhando sedenta em direção a um rio
Quando um caminhão, à noite, interrompeu seu movimento.

Ao sol, aos urubus, aos vermes serviu como alimento
Enquanto choravam filhotes abandonados na floresta
De saudade, fome, frio...resistiram, sem sustento?

Mamíferos ficam todos iguais, de relento em relento,
Jogados onde morrem, são devorados pela Terra
A Mãe Natureza de si mesma dá e toma seu sustento.



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